terça-feira, 18 de outubro de 2022

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Alice gostava da atmosfera daquela casa antiga com cheiro de madeira, de móveis torneados, da cera das intermináveis tábuas do chão, de incenso e do jardim com suas folhagens diversas: rosas, copos de leite, jasmim, arruda, guiné e melissas. Nas noites mais quentes, quando os mosquitos permitiam, ela gostava de abrir as janelas, levar a poltrona para perto e tomar alguma coisa gelada. Fechava os olhos e esperava que os perfumes entrassem pelas narinas, separando cada um deles mentalmente num jogo íntimo. Era uma forma de meditação peculiar e pessoal que ela desenvolveu há alguns meses desde que se mudou para lá.
Mas as vezes, no meio desse momento de paz, onde ela relaxava quase por completo com as pernas esticadas e apoiadas no parapeito da janela, na esquina do cérebro algo espreitava. Algo sinistro, intenso e urgente, como um cheiro ruim que adentra nossa narina sem pedir licença, sem nos deixar fugir.
Ela era arrancada daquele lugar aconchegante, abrindo os olhos instintivamente, fixando o olhar no teto, como se ficasse concentrada no que eles traziam. E eles traziam de tudo um pouco: dor, raiva, medo, tristeza, ódio e prazer. Prazer em imaginar que em breve o sangue espalhado no chão pagaria uma dívida grande demais para ser paga com qualquer outra coisa menor do que isso.